O que eu posso dizer sobre o show da virada?
Foi fodástico!!! (confiram algumas fotos)
Última música do ano: "Não chores mais"; primeira música de 2011: " Pais e filhos". Espero que o público tenha recebido a mensagem de coração hospedeiro.
O Moroocha é uma casa maravilhosa, de excelente bom gosto e qualidade, frequentada por pessoas que correspondem a essa premissa. É preciso lembrar que o dono da casa é um argentino. Fato que deixa qualquer brasileiro com alguns pés atrás, diferenças linguísticas e rivalidades desportivas à parte, a linguagem musical é única e fala em qualquer pessoa que tenha o mínimo de sensibilidade. E essa sensibilidade não falta para a galera da casa, pelo contrário, tirando a música argentina que colocam após o show um pouco por pirraça, outro tanto por orgulho nacional que falta no brasileiro - às vezes por circunstâncias compreensíveis- e sobra à quilos nos hermanos.
A energia do Arraial é incrível, quando menos se espera existe uma confluência de emoções tão natural que dá a impressão de se estar tocando para pessoas já conhecidas há muito.
Assim que voltamos ao palco depois da virada, tomei algumas palavras emprestadas do poeta que vem sendo meus olhos neste verão que transcrevo aqui na íntegra:
Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.
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O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...
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Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
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O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.
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Surge a manhã de um novo ano.
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As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
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(Do livro A rosa do povo, Editora Record, 1984)
Obrigado a todos pela energia trocada no show e um abraço forte cheio de saudade a minha família!
Sua viagem musical provoca a mesma sensação da leitura de um bom livro: como se fizéssemos parte dele. Vc emociona, encanta e cativa.
ResponderExcluirParabéns...Vc merece!!!!