Chegamos cedo à praia do espelho e logo passamos o som. Em consequencia desses acontecimentos inusitados, tivemos um bom tempo livre.
O que fazer dele?
O que fazer dele?
Nada! O nada mais complexo e construtivo do que qualquer outro. O absoluto, como queriam alguns poetas franceses, ou filósofos alemães.
E nós o obtivemos sem buscá-lo, sem méritos, sem cautelas ou receios.
Durante a maior parte do dia, a galera (marcão e felipe) ficou mergulhada num rio de água doce que circundo o bar Shushi aonde tocaríamos mais tarde, todos empenhadosem ensinar Raoni a boiar, tarefa de alta periculosidade para qualquer paciência.
Durante a maior parte do dia, a galera (marcão e felipe) ficou mergulhada num rio de água doce que circundo o bar Shushi aonde tocaríamos mais tarde, todos empenhados
Nesse tempo, eu fui camihar pela praia em busca de alguma sombra (nem pedia por água fresca), qualquer sombra valia, só precisava de uma que evitasse que o sol dos trópicos fundisse meu raciocínio cartesio-tupiniquirm. No início julguei uma tarefa fácil e de rápida solução, pois toda extensão da praia estava recheada de árvores, mas isso foi um mero engano de uma consciência ingênua provinciana: a cada sombra que via e me inclinava cambaleante em sua direção, quando chegava mais próximo me deparava com uma placa singela, mas imperativa, "particular". Isso mesmo, sombra 'particular'. Só não nomearam qual era a propriedade particular em questão por mera educação e por julgarem que para um bom entendedor meia patuscada abrasa.
Conformado com a situação, prossegui minha odisséia pelas areias nordestinas, desgraçado de viagem, Ulisses perdido pelos caprichos de um deus vingador. Com alguma sorte e grande confiança nos ditados populares (que parecem ter dupla valia nessas terras), procurei e encontrei uma desavisada dos colonizadores de combras que estavam muito próximos dali e que em pouco tempo já haviam conquistado a maior parte de seus ares. Sentei-me aos pés desta esquecida e invisível sombra, que nao deixava a desejar a nenhuma outra, talvez pela localização perdia um pouco do encanto, ela ficava ao final de variados habitats, para se chegar até ela passava-se por uma zona de calmaria, casas, zona de barcos e botes, alguns bares (2 ou 3, no máximo), e enfim chegava-se a ela. Portanto, ela era a repetição de uma paisagem já vista e visitada e nesse lugar a única coisa que não é aceita é a repetição e perda de um valioso tempo monetário. A maioria dos turistas que passam por ali, estão de passagem, com rotas traçadas, caminhos demarcados sem possibilidades de desvio, é preciso ver o máximo que se puder.
Essa questão do tempo é interessante, para se ver o máximo que for possível, não é necessário correr o mais rápido que puder, pelo contrário, é preciso parar o máximo que puder. Cada coisa exige para si um tempo para ser contemplada, o olhar apenas é vago, tem-se que rePARAR, deixar-se comoVER pelas coisas, tudo isso só é possivel com a diluição do tempo, ou melhor, a anulação quase completa. Só através de uma mente vazia de pensamentos e preocupações, vazia de si mesma, só assim é possível enxergar o absoluto de cada coisa.
Sentado da esquecida e solitária sombra de onde eu me encontrava, eu podia ver as paisagens dos dois extremos da costa espelhada: de uma lado uma mata resistente, do outro as falésias que parecem uma grande fatia de um doce caramelado, cujas bordas foram cautelosamente recortadas por um confeiteiro ancião...
Sentado da esquecida e solitária sombra de onde eu me encontrava, eu podia ver as paisagens dos dois extremos da costa espelhada: de uma lado uma mata resistente, do outro as falésias que parecem uma grande fatia de um doce caramelado, cujas bordas foram cautelosamente recortadas por um confeiteiro ancião...
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