Primeiro show na Bahia, dividindo o palco com Nasi, muita expectativa e nervosismo para a estreia.
Agora o verbo se solta um pouco mais, a tensão inicial aliviou um pouco, mas permanece num grau, mas ameno e suportável para manter a força dúbia que pedem um show de rock e os grandes poemas.
Saímos do Arraial d’ajuda a tarde em direção a uma surpresa: não tínhamos a mínima ideia para qual local iríamos – mais tarde a gente descobriria que nada sabíamos mesmo depois de chegado ao destino- depois de muito chão…de muito chão! De quase 40 km de pura e poeirenta terra por uma pista estreita e com um certo grau de periculosidade, alcançamos o almejado desvirginador palco em que iríamos redescobrir algumas nuances de nossa energia vital: o rock’n roll com cheiro de sal e muito quente, o que no baianês quer dizer muito apimentado. Uma surpresa como um tapa na cara de qualquer pessoa desavisada; não poderia imaginar a força que o rock tem por aqui.
Após mais momentos de apertos no carro e no coração, com o pôr do sol, a penumbra alcançando todas as frestas e falésias, o desconhecimento de tudo era o único senhor de nossas posses. Chegamos ao bar que tocaríamos e ali ficamos, sem saber exatamente o que tinha ao nosso redor, pois a noite já tinha chegado antes de olharmos em volta.
O único mundo que existia era aquele onde estava montado o palco, com algumas poucas luzes descrevendo o ambiente ao redor, pois o que sobrava era a escuridão da noite contra a energia elétrica que não contava com postes de iluminação, mas apenas alguns abajures decorativos com velas colocados somente na entrada do bar aonde tocaríamos dali a pouco.
Isso criava uma atmosfera mística, pois como já disse não conhecíamos nada da região, só o bar, não tínhamos visto muitas pessoas e com a vinda da noite não tínhamos a menor idéia pra que lado era o que; pessoas surgiam de diferentes lados vindas do escuro, como se tivessem surgido dali.
Eu esperava no camarim, bastante tenso devido a extrema ansiedade, quando me chegou a notícia de que um casseta (Cláudio Manoel) estava no bar e consequentemente iria acompanhar nosso show. Fato que contribui para o aumento da expectativa, que agora era mais aquele tipo de nervosismo conformado com a situação do acontecimento iminente inevitável e intransferível - era uma carga que eu deveria carregar, mas uma carga que eu queria pra vida toda, não me pesava.. me dava mais força.
Os primeiros 30 segundos de show são os mais tensos, depois disso há apenas atenção aos detalhes e depois o esquecimento quase que completo da consciência e um estado de descontrole ordenado.
Já esta provado que um show não se faz somente com uma excelente banda somado a um repertorio eclético e coerente; quem faz a maior parte do show é o publico e a energia que está em alguma parte desse estado não permite que alguém fique parado com alguma canção, ela vai tocar em algum lugar...às vezes se externando para os movimentos corporais, as vezes nem tanto, mas sempre mexendo com as pessoas.
Não sei qual foi a maior emoção, se tocar junto com Nasi, ou ter um público animado e irreverente contando ainda com a ilustre presença de Cláudio Manoel dono de um humor tão natural e espontâneo e uma energia tão elevada que os 220 wats de energia que optamos por usar em nossos equipamentos eram simplesmente os coadjuvantes da história.
Isso ficou comprovado quando puxei as primeiras notas de Pais e Filhos e sem acompanhamento nenhum, a não ser as vozes da galera a música seguiu, sem perder o ritmo, até ao refrão quando entramos sem poder resistir mais tempo com todos os instrumentos destruindo nossos dedos e cordas vocais para construir com isso uma comunhão maravilhosa com todos que estavam ali.
O show foi muito foda!!! O publico foi muito foda!!! A energia baiana é muito foda!!!
O verbo está solto, para sorte do rock’n roll!!